domingo, julho 29

2ª carta.

avô, como prometido, esta será a tua segunda carta composta com os meus desabafos.
 lembras-te do que escrevi na 1ª carta? sofre como me estava a sentir? pois é, continuo a sentir a mesma angustia. e a cada segundo que passas mais ela aumenta. tu sabes como eu sou, sabes que eu dou tudo de mim e quando falho fico sem nada, porque tudo ficou lá, guardado na história que houve. eu não sei como sobrevivo, talvez seja para sofrer o que faço sofrer. eu digo-te, eu cansei-me, cansei de ser o que sou. cansei tentar agradar todos e acabar por magoar os importantes. cansei de mentir, sim, tu sabes de tudo o que já fiz. mas sabes que eu não o faço por mal. é errado? claro que é, eu sei disso, tu ensinaste-me-o mas eu nunca te escondi que por mais que tentasse, por mais que quisesse não o conseguia evitar. e isso deixa-me de rastos, fico sem forças para tentar remediar, nem que seja um pouquinho, a asneira que fiz. ontem não fui capaz de a enfrentar avô, não fui capaz de dizer o que te disse. acho que nunca o serei.
doí saber que magoamos alguém a quem prometemos nunca magoar e desiludir, a quem dissemos que por mais coisas que acontecessem nada iria mudar. ao contrário do normal, eu não preciso de pessoas de fora para ficar sem amizades, eu estrago-as sempre, sozinha e estupidamente.
porquê? eu pergunto-me, porquê avô. porque sou assim? todos temos defeitos mas porque é que eu tenho este? não sabes me responder não é? nem eu avô. eu só gostava que soubessem que estou arrependida e que nunca quis desiludir ninguém. sabes, a humilhação para mim não me doí tanto como o nojo que sinto por mim. nada apagará o que fiz, isso é certo mas espero que, principalmente, ela consiga ver o que de melhor em mim existe e acreditar que tudo o que passamos foi sincero. eu sei, não devo acreditar que ficará tudo bem, pois não ficará, sei que devo mudar, mudar a minha vida e começar do zero. e eu vou fazer isso e vou conseguir vencer. eu sei que tu estarás a torcer por mim.
mas antes de mudar terei de fechar este capitulo e sinceramente não sei como o fazer...não é facil dizer o que sabemos que vai magoar ainda mais a pessoa mas eu sei que a pessoa merece isso de mim. e eu vou ganhar coragem, uma vez na vida e irei assumir o erro que cometi. não vou implorar o perdão, porque não há perdão para tal coisa, ainda tenho consciência disso. e quando tudo isto acabar eu vou sair de cena, vou seguir o meu novo caminho e as pessoas poderão dizer que eu fugi mas eu não o fiz nem o farei. eu vou te mostrar que continuo a ser a menina que não têm medo de nada, a menina que tu ensinaste a ser forte e a enfrentar tudo, até mesmo o inferno.
posso ter caído, avô, posso estar no fundo do poço mas eu vou me erguer e vou lutar para ser alguém, ser eu e vou conseguir.
bem avô, eu sei que mereces uma cartinha melhor mas não estou muito inspirada para escrever, e prefiro que tenhas uma carta pequena mas sincera e com tudo o que eu sinto descrita nela. eu amanhã voltarei a escrever-te e enviarei-te fotografias da família fofa que tu amas. não esquece, eu amo-te!

                                                                                         da tua neta: Cláudia Filipa

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